A Meta divulgou nesta quarta-feira, 29 de julho, os resultados do segundo trimestre de 2026 e usou o palco da teleconferência com investidores para revelar sua aposta mais ambiciosa em inteligência artificial até agora. O fundador e presidente-executivo Mark Zuckerberg afirmou que, dentro de cinco anos, bilhões de pessoas terão um agente de IA pessoal funcionando continuamente em seu nome, cuidando de tarefas que vão de finanças a saúde e organização doméstica. A declaração chega em meio a um investimento recorde da empresa em infraestrutura de inteligência artificial e a uma reação nervosa do mercado financeiro.
Durante a divulgação de resultados, a Meta reportou receita de 60,8 bilhões de dólares no trimestre encerrado em junho, alta de 28 por cento em relação ao ano anterior, impulsionada principalmente pelo uso de inteligência artificial no negócio de publicidade digital. Apesar do resultado acima das expectativas de analistas, o fluxo de caixa livre da empresa despencou 91 por cento, para apenas 784 milhões de dólares, ante 8,55 bilhões de dólares no mesmo período do ano passado. A queda reflete o ritmo acelerado de gastos com data centers e chips para treinar e rodar modelos de IA, que somaram cerca de 31 bilhões de dólares somente neste trimestre. A companhia também elevou sua previsão de investimento total em infraestrutura para 2026, que agora pode chegar a 145 bilhões de dólares, ante 72,2 bilhões de dólares gastos em todo o ano de 2025. Entre os movimentos recentes está uma parceria com a gestora BlackRock para financiar um data center de 14 bilhões de dólares no Texas. Zuckerberg disse ainda que mais de um milhão de empresas já adotaram os agentes comerciais da Meta no WhatsApp e no Messenger somente neste trimestre.
A previsão de Zuckerberg é significativa porque a Meta controla algumas das plataformas mais usadas no mundo, incluindo WhatsApp e Instagram, com forte presença entre usuários brasileiros. Se agentes de inteligência artificial pessoais realmente se tornarem parte do dia a dia de bilhões de pessoas, a mudança não ficará restrita ao mercado americano nem a nichos corporativos, mas alcançará diretamente quem já usa esses aplicativos para conversar, comprar e trabalhar. Ao mesmo tempo, a reação do mercado mostra o outro lado dessa aposta: as ações da empresa caíram mais de 8 por cento no after-market, mesmo com receita recorde, porque investidores temem que o retorno financeiro dos bilhões investidos em infraestrutura de IA ainda esteja distante. Esse impasse entre promessa tecnológica e pressão por resultados imediatos é hoje o principal termômetro de como o mercado avalia toda a corrida por inteligência artificial, não apenas a Meta.
O investimento pesado em IA tem um custo visível em outras frentes da empresa. A divisão Reality Labs, responsável por realidade virtual e aumentada, registrou perda de aproximadamente 4,6 bilhões de dólares apenas neste trimestre, elevando o prejuízo acumulado da unidade a cerca de 88 bilhões de dólares desde 2021. Zuckerberg também publicou recentemente um artigo de opinião defendendo um modelo mais aberto de desenvolvimento de IA, alertando contra o que chamou de concentração extrema de poder no setor, num claro aceno a concorrentes como OpenAI, Google e Anthropic. A disputa segue acirrada, com o Google reforçando agentes de IA em seu mecanismo de busca e a Anthropic registrando forte crescimento nas assinaturas do Claude, especialmente entre desenvolvedores. Nos próximos meses, o mercado deve acompanhar de perto se a Meta consegue transformar o milhão de empresas já usando seus agentes comerciais em receita consistente, e se a promessa de um assistente pessoal para bilhões de usuários sai do discurso para o produto.
O episódio resume bem o momento atual da inteligência artificial: promessas grandiosas de transformação cotidiana convivendo com números financeiros que ainda não fecham a conta para boa parte das big techs. Para o público brasileiro, que já convive diariamente com WhatsApp e Instagram, a corrida por agentes pessoais de IA deixou de ser um debate distante e passou a ser uma questão de tempo até chegar ao bolso e à rotina de milhões de usuários.